
Pouca gente sabe, mas para conseguir a performance ideal nos treinos de corrida, garantir uma boa saúde bucal também é importante. Não parece, mas problemas odontológicos e respiratórios podem influenciar –e muito– no seu desempenho durante a corrida.
A tendência da maioria das pessoas é achar que a saúde do corpo não tem ligação direta com a da boca, mas, muitas vezes, o problema que atrapalha seu rendimento não está nos músculos nem na parte óssea ou nervosa do seu organismo, mas acima do pescoço. A dentista Maristela Fratucci, especialista em saúde pública pela USP, explica que não se pode mais trabalhar as especialidades de forma segmentada e que os agentes de saúde devem atuar juntos, médicos e dentistas, de forma multidisciplinar, para obter melhores resultados. “O conceito que analisa o ser humano de maneira holística, integral, é cada vez mais aceito.
É certo que não se pode falar em saúde e desvincular as diversas áreas que compõem o corpo humano”, afirma Fratucci. Esportistas e boa parte da população só procuram o dentista quando sentem dor de dente ou sofrem algum acidente.
Muitos não sabem que queda de rendimento esportivo, sonolência e até a dificuldade para curar alguma lesão na perna, por exemplo, podem ser causados por problemas bucais. “A maioria dos atletas se esquece de cuidar da saúde da boca. A síndrome do respirador bucal, por exemplo, pode interferir diretamente no seu desempenho”, explica Alexandre Barberini, presidente da Associação Paulista de Odontologia Desportiva e professor dessa especialidade na Universidade de São Paulo (USP).
A odontologia desportiva ainda é pouco conhecida no Brasil, mas os eventos já descobriram há algum tempo a importância da presença desses profissionais nas provas. “É importante ter um profissional da odontologia por perto antes de uma maratona ou campeonato porque, além de checar se o atleta tem alguma infecção ou lesão bucal antes do treino, ele sabe que, se o paciente está com alguma inflamação, não se pode receitar anestésico com vaso-constritor (adrenalina) menos de 48 horas antes da prova, já que a substância pode ser apontada no teste de doping”, conta Barberini. Se o atleta tem uma infecção bucal, por exemplo, seu rendimento cai porque o incômodo tira sua concentração do treino.
Prevenção
Para prevenir problemas e manter a saúde bucal, há cuidados a serem tomados:
1:: Prestar mais atenção ao que se come. Alguns alimentos oferecem mais riscos para os dentes do que outros, como a sacarose. “Açúcares e carboidratos (que se decompõem e viram açúcar) são cariogênicos, mas alguns tipos são mais do que outros”, explica Maristela Fratucci. “Não dá para deixar de consumir produtos que tenham tais substâncias, mas é bom substituí-los ou escovar os dentes logo após a ingestão.”
2:: Depois dos treinos e provas, não dá para esquecer que é preciso limpar os dentes da sacarose. Na maior parte das vezes, essa substância é a base dos energéticos e suplementos. A boca tende a ficar mais ácida 40 minutos após a ingestão de qualquer alimento, o que a torna o ambiente ideal para a proliferação de bactérias e microorganismos que causam as doenças. “Os dentes trocam minerais com o ar e a saliva, o que equilibra o pH da boca, mas essa troca, sozinha, não dá conta do recado”, explica Fratucci.
3:: Além da escovação, fio dental e produtos para bochecho também são bem-vindos. A escova ideal, segundo especialistas, tem cabeça pequena o suficiente para alcançar todos os cantinhos e dentes da boca, e cerdas retas e macias, para não agredir a gengiva. O flúor, contido na água tratada e nos cremes dentais, também ajuda a evitar cáries e infecções.
Impacto da corrida na boca
O impacto da corrida pode, a longo prazo, prejudicar a saúde
bucal. Isso porque o constante contato entre os dentes gera atritos que, a longo prazo, resultam em nódulos na polpa, que é a parte mais interna do dente, onde há pequenos vasos que ligam a arcada à circulação sanguínea de todo o corpo. “Os atritos causam microcortes que, mais tarde, podem gerar lesões maiores na polpa, causando dores difusas”, diz Barberini. Como é quase impossível evitar esse atrito –a não ser que o atleta corra usando um protetor bucal daqueles de boxeadores– o ideal é visitar um dentista a cada seis meses.
O dente é como uma câmara fechada. Durante os exercícios, a circulação aumenta e a temperatura do corpo também. A pressão interna na polpa do dente, se estiver infeccionado, infeccionado, causa dores latejantes que desviam a atenção do atleta. Muitas vezes, mesmo quando há infecção e dor, é difícil para o esportista perceber sem ajuda de um especialista que há algum problema bucal. “O atleta, às vezes, passa meses com o dente inflamado e não sabe, só descobre quando vai ao dentista”, conta Barberini. Quando isso acontece, o principal risco é a infecção entrar na corrente sanguínea e afetar outros órgãos, e futuramente causar nefrites e reumatismos. “Uma atleta chegou ao meu consultório para fazer check-up e comentou que há meses estava com uma lesão no joelho que não sarava, embora já tivesse feito quase tudo. Descobrimos que o responsável por seu problema de saúde era, na verdade, uma infeção bucal. Tratamos do problema e o joelho dela sarou”,
conta Barberini.
Mas, afinal, o que o joelho tem a ver com a boca? Tudo, já que o sistema imunológico do organismo é um só. Se há no corpo duas doenças e uma delas não é conhecida nem tratada, o sistema de defesa do organismo não sabe qual deve combater. Nessa confusão, os glóbulos brancos não conseguem dar conta de sanar nenhuma das duas enfermidades.
Saúde da boca vai além dos dentes Disfunção da articulação temporomandibular é uma doença muito comum entre atletas. Essa articulação é responsável por quase todos os movimentos da face (fala e mastigação) e fica entre a mandíbula e a têmpora. A fisioterapeuta Renata Di Grazia, professora da Unicamp que defendeu tese de mestrado sobre a doença (conhecida como ATM), conta que muitos atletas chegam ao seu consultório com dores musculares e não sabem que o problema está nessa articulação. “Os sintomas são dores de cabeça, no pescoço e na garganta, rouquidão e zumbidos no ouvido”, explica. O problema é que, geralmente, esses sintomas não aparecem simultaneamente, o que faz com que a doença seja confundida com sinusite e enxaqueca. O tratamento, segundo Di Grazia, é multidisciplinar. Ou seja: é preciso que fisioterapeuta, dentista, otorrinolaringologista e ortopedista trabalhem juntos.
“Quando a articulação inflama, além de sentir dor, o atleta sente fraqueza e não mantém uma boa postura. Nesse caso, o ideal é se afastar dos treinos porque o aumento da circulação traz mais dores e piora a inflamação”, alerta. Se a ATM avançar, pode causar problemas reumáticos, como a artrose. Síndrome do respirador bucal é outro distúrbio muito comum, que compromete a atividade física, mas tem diagnóstico difícil. É uma espécie de má formação da musculatura facial. “É muito comum em pessoas que não foram amamentadas na infância e por isso não desenvolveram os músculos da face de forma completa”, explica Maristela Fratucci.
O primeiro sinal é a dificuldade de respirar pelo nariz, pois quem sofre desse mal só consegue respirar pela boca. A arcada dentária é irregular, formando o que os especialistas chamam de oclusão. “O rendimento do atleta que sofre da síndrome do respirador bucal pode ter queda de até 30%”, garante Barberini. Por não respirar corretamente, a pessoa não dorme nem come bem, tem muita sonolência, pouca resistência
aeróbia e problemas de postura.
VOCÊ SABIA QUE....
... problemas na gengiva podem causar queda de até 10% no condicionamento físico? Por isso, atenção às gengivas vermelhas e sensíveis -muitas vezes, há inflamação sem dor.
... o bruxismo é um hábito parafuncional, isto é, uma função exercida além da normalidade, caracterizado pelo atrito excessivo e constante dos dentes e, portanto, por intensa atividade
do sistema mastigatório. Isso pode provocar a disfunção da articulação temporomandibular, na musculatura e também desgastes nos dentes com ou sem dor.
PROBLEMAS BUCAIS QUE PODEM AFETAR O DESEMPENHO ESPORTIVO
:: má oclusão (encaixe) dos dentes
:: síndrome do respirador bucal
:: infecções - canais não tratados e doenças na gengiva
:: falta de dentes - responsável por dificuldades na mastigação e digestão
:: disfunção da articulação temporomandibular (ATM)
FONTES:
:: SEIXAS, L. “Odontologia Desportiva em Ação”
:: SREENBY, L.M. “Sugar Availability, Sugar Consumption and Dental Caries”, in Community
Dent Oral Epidemiol
:: AROW, P. “Oral Higiene in the Control of Occlusal Caries”in Community Dent Oral Epidemiol
:: www.denvitalis.com.br
REVISTA O2 - ED 24